sábado, 9 de abril de 2011
Portugal 2011
País imaginado fora do tempo
Já não existes, se exististe.
Pasto de vento que move moínhos
Também tu giras sem sair do lugar
E silenciosamente agitas as pás,
Sem fazer farinha
Que te possa salvar.
A cavalo dado não se olha o dente
Diz Judas, de olho na crina áurea
Enquanto lhes beija os quadris.
E como Pilatos lava as mãos
No suor de quem trabalha,
Mártires sem filosofia.
Eia Rocinante, eia!
Lança-te de cascos em lança
Contra esses moínhos de vento!
Eu ordeno-te unicórnio,
O povo fará de Pança
E eu imagino-me o sonhador.
Refundemos a santa trindade
Noutros moínhos,
Que se movam pela força da vontade.
Aticemos a lança com os olhos
Vazios de quem nada tem
Que na sela, viaja a esperança dum lado,
E no outro, cravos ainda por sangrar.
Cavalguemos Sancho! e voaremos
Num vento de bandeiras desfraldadas
Numa chuva de lanças afiadas de sal.
Ala Rocinante, ala!
A cruzada do querer
Começa nas brisas do imaginar.
Eia Rocinante, eia!
Resfolego que vira asas
Asas que viram lanças
Lanças que viram ar.
A cavalo dado não se olha o dente
Lança-ta p'lo ar Rocinante!
Todos somos poucos
Para tantos moínhos de vento!
2011/04/08
sexta-feira, 8 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
ManINfestação II
Governo demitido faz 156 nomeações e promoções
Não quero cometer a desinteligência de afirmar peremptoriamente que todas as 156 nomeações/promoções são desajustadas. Sei que o mundo não para, nem as organizações, nem as suas necessidades e objectivos, ou seja, a vida continua mesmo com o governo demissionário. Sei também que quando olhamos para números abstraímo-nos do facto desses números representarem pessoas e que uma decisão que beneficia a maioria acaba por prejudicar uma minoria.
Não obstante os vícios da generalização não deixa de ser curioso o surto de nomeações ou promoções que se verifica sempre que há rotações de Governo ou mudanças na lei com impacto nos cargos políticos, seja nos vencimentos dos seus titulares ou nos vínculos laborais e o surto de medidas de gestão de última hora tais como aprovação de projectos e legalização extemporânea de ilegalidades. O resultado é sempre o mesmo: aumenta-se a factura a pagar pelo Estado, o que é o mesmo que dizer por todos nós, como se pode comprovar pelas medidas "PECianas" cuja constância se resume ao espaço onde temos que preencher o nosso NIB para ajudar este país gordo de corrupção e má gestão.
Em lado nenhum se vêem os políticos a pagar pelas asneiras que fazem. Dizem, como o socialista Francisco Assis, que o "pagamento" tem que ser apenas político e pagam-no com a perda dos seus lugares quando os eleitores assim o decidem com o seu voto. Mas esta é uma falácia duplamente falsa. Em primeiro lugar é falsa porque os votos não encontram a representatividade necessária para que essa responsabilização possa ser feita, porque responsabilizar um partido não é o mesmo que representar os titulares dos cargos políticos que deveriam ser avaliados individualmente – e a diluição no grupo protege os incompetentes e os vigaristas. Em segundo lugar, porque não existe uma verdadeira alternativa (nunca houve, na realidade) que permita castigar os políticos com comportamentos danosos para a imagem do país e para o erário público através de uma votação. Basta ver os “retornos” políticos. Basta atentar que os ex-governantes encontram guarida como deputados no seu partido e se mantém pela Assembleia e pelas listas, independentemente da vontade dos portugueses. Como todo os partidos agem da mesma maneira, deixa de existir alternativa política e, consequentemente, verdadeira responsabilização política patrocinada pelo eleitor. E, por favor, abstenham-se de retóricas tais como "porque não crias um partido político alternativo?" É o mesmo que dizer a um náufrago que se não devia ter metido no barco em primeiro lugar, que deveria ter viajado de avião. Mas nós já estamos no barco, não é viável criar um novo partido político (vide Manuel Monteiro) e o barco está à deriva.
Acho que os governantes deveriam ser responsabilizados amplamente por certo tipo de decisões, nomeadamente decisões que impliquem custos elevados para o Estado directamente imputáveis a incúria, desleixo, compadrio e ignorância. Se não são capazes de o fazer demitam-se. É necessário profissionalizar a decisão para que depois essa decisão possa ser julgada com critérios racionais, reduzindo drasticamente a existência de decisões ad-hoc e de corrupção. Acho também que decisões complexas como é o caso da construção de novos aeroportos, alterações de planos de pormenor, acções que levem a endividamento substancial ou a investimento substancial deveriam ser tomadas de forma colegial, à priori, e não utilizar as comissões para avaliações posteriores para controlo de danos, que mais não são que escusas para justificar a existência de tantos deputados na Assembleia da República e oportunidades para fazer lavagem de roupa e "chicane" política, como o podem testemunhar a Maria José "mas quem é este palhaço" Nogueira Pinto e o "papa-gravadores" socialista, Ricardo Gonçalves. Cada elemento dessa comissão teria que indicar o seu parecer de forma justificada e todos eles ficariam sujeitos a vir a ser responsabilizados pelos danos que a sua decisão pudesse acarretar.
Sim, é verdade que o processo de fiscalização da existência de dolo se mantém. Mas se queremos começar a higienizar a nossa sociedade é preciso começar pelos líderes. Um bom começo é um que diminua a probabilidade de existência de corrupção.
Concedo que a decisão colegial que proponho possa ser apelidada de devaneio comunista mas não é, de todo, o caso. Eu não acredito no comunismo, tal como não acredito no capitalismo. São ambos modelos imperfeitos criados e executados por Homens imperfeitos. Contudo, acho que se os políticos querem realmente que os eleitores acreditem neles e na sua idoneidade é este o caminho que têm que seguir. Decisões estruturantes terão que ser, de algum modo ou até um certo ponto, colegiais e a responsabilização terá que ser efectiva e individual. Não há outra forma de devolver a credibilidade aos políticos, porque qualquer outra forma implica um voto de fé e os portugueses já não têm fé nos políticos, nem nos partidos. A abstenção é a prova disso mesmo.
domingo, 13 de março de 2011
ManINfestação
foto cortesia de Ana ClaraEste post vai ser um anti-clímax com toda a excitação que para aí vai com as manifestações e com a presença maciça de pessoas de todos os quadrantes e todas as idades, que acharam por bem demonstrar a sua indignação contra muitas coisas, numa amálgama que teve tanto de positiva como de inconsequente. Diria eu que o impacto positivo (será?) passou por forçar o PSD a antecipar os seus tempos políticos e afirmar-se finalmente com a dureza que os portugueses esperam, porque estão (estamos) fartos de Sócrates. E se é verdade que "better the devil you know" é uma expressão que encerra muita sabedoria, também não é menos verdade que as fraldas são para mudar quando têm recheio, mesmo sabendo nós que a próxima fralda seguirá o mesmo destino...
Por outro lado, se bem conheço os portugueses, assim que o governo caia e o orgasmo passe, voltamos ao mesmo "rame-rame" cheios de fé no futuro, fechando os olhos à velhice da "nova" classe política que vai dando os primeiros passos para continuar a delapidar-nos a esperança ao mesmo ritmo que enchem os seus bolsos, para já, vazios. E nós vamos deixá-los em paz durante anos até que, boquiabertos, demonstraremos a nossa estupefacção pelo número de anéis nos dedos dos nossos políticos, tantos quantos os nós na corda da forca que nos reservaram.
É esta falta de consequências que nos estagna e que nos mata. Quanto mais não seja por isso, esta manifestação e as que se seguirão não servirão realmente para nada. Os problemas irão manter-se, provavelmente irão agravar-se e, na verdade, este pretenso voluntarismo agitador morrerá como as últimas vagas de um tsunami... num absoluto silêncio.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Políticos - há que seguir o exemplo!
terça-feira, 8 de março de 2011
quinta-feira, 3 de março de 2011
Guincho às 5


domingo, 27 de fevereiro de 2011
Óscar Tuga

A propósito do grande espectáculo dos óscares do cinema ao qual eu não podia prestar menos atenção, decidi instituir um novo galardão, só para portugueses, relativo às interpretações artísticas de alguns portugueses que se tenham destacado nos últimos doze meses.
Este galardão, que se quer prestigiado, vai intitular-se Óscar Tuga e vai conhecer a primeira edição hoje mesmo, aproveitando a boleia dos outros óscares.
Este ano há quatro candidatos ao Óscar Tuga. Com várias proveniências e interpretações diversas, os seleccionados são:
José Sócrates
Carlos Queiroz
Carlos Cruz
José Manuel Coelho
Quem ganhará a corrida ao Óscar? Vejam de seguida a razão de cada candidatura.
José Sócrates
A sua interpretação abriu novas avenidas na arte cinéfila, com a sua interpretação do Primeiro Ministro de Portugal no filme:”FMI – O Regresso”. Nunca antes se vira alguém a representar um personagem tão complexo com tanta verosimilhança. Conseguiu combinar a tragicomédia de uma acção governativa, o humor negro, o retrato social apurado e cínico de um povo que é roubado e enganado e, ainda assim, se mantém passivo, as teias corruptas do poder político e económico demonstrando as relações existentes entre os diversos personagens para, dessa forma, reconstruir a razão de ser de uma sociedade abúlica e a justificação para a existência de uma cúpula vampiresca intocável. José Sócrates demonstrou ser um actor multifacetado, capaz de expressar uma gama de emoções muito alargada, característica fundamental para desempenhar o papel que é considerado pela crítica como o mais difícil de todo o cinema português.
Carlos Queiroz
Actor Principal no filme “Oportunidades Perdidas”, brilhou na interpretação de uma personagem arrogante mas incapaz de enfrentar a realidade de ser incompetente. Um filme duro e violento, não recomendado a menores e onde se podem ouvir coisas como “tem que se limpar a merda na federação”. A generalidade da crítica indica o momento em que substitui Hugo Almeida durante o jogo com a Espanha como o momento para Óscar, pela sua intensidade dramática, mas há também alguém que indique os momentos em que fazia competição de definição de abdominais com os seus jogadores. Actor muito experiente, Queiroz conseguiu pegar numa personagem pouco interessante e dar-lhe uma longevidade assinalável. Para além disso, o facto de estar sempre em forma também ajudou, dadas as exigências físicas necessárias a quem compara abdominais.
Carlos Cruz
Habituado a interpretar papéis pequenos, acabou por se destacar num dos filmes mais aclamados do ano – “Small is Beautiful”, uma longa metragem cujo único defeito é deixar o espectador na expectativa sobre o final, uma vez que não fica bem claro qual o destino da personagem principal. As más línguas afirmam que a indefinição do filme foi propositada, já a pensar numa sequela em que a Igreja Católica vai ver-se envolvida numa série de escândalos que quase a destroem. Voltando à interpretação de Carlos Cruz, a personagem desolada, inconsolável e revoltada contém o sal e a pimenta necessários à atribuição do galardão máximo do cinema português. A cena em que está a comer franguinhos da guia com as mãos lambuzadas em molho picante e de repenta congela a expressão, olha por cima dos óculos, um olhar fixo e perscrutador como uma máquina da verdade, e pergunta: “quantos anos tens?” vai ficar nos anais do cinema luso.
José Manuel Coelho
Ainda dizem que as histórias da carochinha não acontecem! Aí está José Coelho, Coelhinho para os amigos, um ilustre desconhecido que é nomeado para o mais alto galardão do cinema luso no seu primeiro filme: “Caldeirada de Coelho”. Um filme que apareceu com grande estrondo no festival da Madeira e se propagou pelo continente, tomando de assalto as tabelas de audiências do género cómico. Na senda dos filmes de Junot e do seu ilustre “Gendarmerie”, Coelhinho interpretou cabalmente o papel de um pseudo-candidato à presidência da república, que aproveitava o facto de ninguém o levar a sério para poder dizer o que lhe passasse pela cabeça. Cenas hilariantes mas um pouco inverosímeis tais como fazer a campanha política em cima de uma carrinha funerária ou uma entrevista feita por um canal televisivo à sua esposa em que esta afirma “eu bem o aviso para ele não dizer aquelas coisas mas ele não me ouve!” são apenas as mais significativas. De qualquer maneira a interpretação de um pobre louco que aproveita a loucura para dizer umas verdades é interpretada com muito realismo e muito boa disposição e acaba por ser uma lufada de ar fresco face ao enorme peso psicológico e dramático das restantes personagens a concurso.
Estão seleccionados os candidatos. Venham agora as votações!
Evento Sushial IV
Este ano, estou de volta ao sushi e a pagar promessas. A antepenúltima foi paga no sábado passado, com o meu "grupo de Coimbra". De Coimbra acabam por ser apenas duas pessoas, mas o grupo da pós-graduação, versão reduzida, acabou por se manter em contacto muito por culpa de uns almoços extraordinários que acontecem anualmente lá para os lados conimbricenses e, por isso, o nome parece-me bem apropriado.




domingo, 20 de fevereiro de 2011
Velhos são os trapos
Um ano mais velho ó boneco de trapos!Velhos são os trapos! -diz o boneco
Eu visto papel não visto farrapos
debruados a burel. Eu escrevo fiapos
de tinta na pele, papel não são trapos!
E não me sabem a fel as letras nem o marco
que me tatuam na pele. Tingem-me o palato
com a côr do mel quando caem do prato.
Sopa de letras escrita em papel seco
letras sempre novas que velhos são os trapos!
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Dedos
Conta-me os passos
conta-me os dedos
no caminho das sombras
Conta-me dos dedos
que para mim apontam
no caminho das sombras
Faz de conta
que a luz que me trespassa não conta
E aponta para a luz que em mim fica
e desponta
Não contes as sombras
conta-me os dedos
Conta-me dos dedos
meus que para ti apontam
da luz dos meus passos
esmagados pela sombra.
Conta-me os passos
e no teu zero trocar-se-ão dedos
enclavinhados em luz.
Calam-se os passos
na sombra muda
e abraçam-se os dedos.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
A dança da Mudança
Bom, nessa altura comentaram o post dizendo que pareciam as fases de uma paixoneta, de alguém que estava apaixonado pela política e se tinha desiludido. Pois bem, acertou na 'mouche'. A minha desilusão é motivada por ter vivido a política de uma forma muito chegada, se bem que como observador. E enquanto mero observador pude manter a equidistância necessária para não me comprometer com nenhum partido, ainda que não possa dizer o mesmo relativamente a ideologias, se bem que também aqui não sou um absolutista. Diria mesmo que cada vez menos a ideologia é a centelha diferenciadora de partidos políticos mas sim a diferenciadora entre partidos e os políticos. Os de antigamente, claro, não os contemporâneos.
A aproximação à política permitiu-me então perceber do que se trata realmente "fazer política". Existe por aí a visão romântica da política, disseminada principalmente pelo cidadão comum, que nunca testemunhou as curvas das entranhas dos processos políticos e que continua a acreditar ingenuamente que a política e os políticos são os agentes legítimos da mudança, aqueles que devem (!) melhorar as condições do país que dirigem e, consequentemente, das pessoas que votam neles. É falso. A função do político é manter o seu partido no poder e alimentar os elementos mais proeminentes desse partido, aqueles que o poderão puxar ao longo da pirâmide. A função dos líderes do partido é manter a ilusão de que, obtido o poder, este vai ser retalhado em pedaços suficientes para todos chafurdarem numa orgia continuada. A função do político no poder - leia-se governo, é gerir os interesses dos elementos mais proeminentes do seu partido e fazer a ponte com os seus homónimos dos restantes partidos garantindo que todos são alimentados de alguma forma. Aliás, se a palavra "partido" não é clara o suficiente, pensem bem no seu significado!
Naturalmente que é preciso dar alguma coisa a quem se encontra fora das elites para que a estrutura da sociedade se mantenha. É a única forma testada e provada de manter a estrutura e hierarquia social sem grandes mudanças, pelo menos em sociedades ocidentais, que a China nesse aspecto tem uma experiência diferente, não se sabe até quando, eu aposto que até ao momento em que a classe média cresça em número suficiente para que não concorde com elites absolutistas e com repartição desigual de rendimentos. Nesse momento a burguesia revoltar-se-á decisivamente, contará com o apoio das classe oprimidas e o sangue lavará a história.
Voltando um pouco atrás, eu não cheguei a ser um desses românticos porque me inoculei muito cedo. Mas continuo a gostar da política de uma forma romântica, como se estivesse apaixonado por uma impossibilidade, por uma Vénus de Milo que, mesmo que tenha existido, já não existe. E, por isso, custa-me a aceitar que a política de hoje não tenha nada a ver com a política que eu amo, porque essa está impregnada de ideologia e de valores que não encontram espaço nem eco na actualidade. Há quem diga que os políticos são um espelho da nossa sociedade mas, não obstante o fundo de verdade que alicerça essa afirmação, eu acho que eles têm que ser muito mais. Têm que ser os nossos líderes, os nossos mentores, têm que ser os melhores de nós, e para serem os melhores têm que se sacrificar em prol da comunidade e não pedir o sacrifício dos outros para si próprio. É uma visão católica-cristã? Provavelmente. Mas é assim que eu entendo a função da política na sua forma mais pura, naquela que daria razão de ser a uma coisa que se chama democracia mas que na realidade nunca o foi, porque para ser efectiva a democracia tem que nos permitir escolher entre o bom e o mau e essa escolha tem estado arredada das nossas opções. Actualmente parece-me que podemos escolher entre o lobo mau e o lobo pior e, ainda por cima, olhamos para o lado, e continuamos a ver lobos de todas as formas e feitios e com diferentes graus de malevolência. Eu, pelo menos, não vejo nenhum capuchinho e angustia-me olhar para todos os partidos e saber qual seria a minha escolha para primeiro ministro (não vai a votos desta feita mas vai lá chegar), sabendo de antemão que é uma escolha em desespero, que na melhor das hipóteses vai trazer tanto de mau como de bom, - está a prová-lo todos os dias no seu cargo actual.
A dança da mudança é necessária mas não vejo como é que uma mudança pode trazer algo de realmente bom, se trocando o par não trocamos também a música.
Recrutamento da Marinha
A dívida por lixo

O jornal "Expresso" traz esta semana uma notícia hilariante assinada pela jornalista Catarina Nunes sobre os produtos chineses à venda em Portugal.
Como será do vosso conhecimento, os produtos vendidos em Portugal deverão ter rótulos e instruções em Português. Para evitar a publicidade negativa que já tiveram no passado quando empurravam para cá qualquer porcaria descrita com os hieróglifos chineses, algumas empresas desse país começaram a traduzir alguns dos rótulos e textos explicativos para português. Só que, aparentemente, os chineses descobriram o google translator e toca de fazer traduções ad-hoc. Como se já não bastasse o trabalho infantil, a quasi-escravatura, as deploráveis condições de trabalho e a execrável qualidade dos produtos, temos também agora uma tradução arbitrária dos textos chineses para português em boa parte dos seus produtos. Os restantes ainda continuam por traduzir.

Recomendo que leiam a notícia do Expresso para uma boa gargalhada mas deixo aqui os exemplos nela destacados (estes são textos que aparecem nas embalagens ou nas instruções):
LANTERNA - "Leia as instruções no contrário e tenha um va! Luz de flash de mão tremor"
RALO DE LAVA LOIÇA E DISPERSOR DE ÁGUA - "Bateria de cozinha. Afunde Coadores. A cozinha tem as séries"
ABRAÇADEIRAS DE PLÁSTICO - "Esfaqueamento"
ALICATE FURADOR - "Não usa esta chave de parafuso com cano ou tocar chave de parafuso para influência"
DETECTOR DE CORRENTE - "Ligar o gancho com chassi ou com qualquer terra"
LANTERNA COM SUPORTE - "Multifuncional de Branco levou a cabeça leve"
A propósito... ocorreu-me agora que, após a segunda paragem, talvez as peças do submarino tridente também sejam de origem chinesa!
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Portugalidade - A Língua
É deveras interessante notar que a cultura americana, ainda que muito próxima da britânica, se é que se pode falar em cultura britânica, porque também ela é uma amálgama de culturas da qual saiu dominante a inglesa ainda que não em regime de exclusividade, seguiu o seu próprio caminho e é hoje, em muitas formas, distinta do original. Seguramente que essa mudança cultural foi possível pela evolução paralela do idioma, afastando-se paulatinamente do berço consoante novas vivências e novas influências se foram acumulando, muito notavelmente a influência africana.
A cultura não é alterada pela língua mas é através dela que evolui e se estabelece. Porque a língua é dinâmica, também a cultura evolui ao longo do traço escrito e flui nas malhas sonoras adaptando-se aos novos tempos sem perder de vista a sua caixinha de perfumes, as suas essências preciosas que impedem que sejamos espelhos uns dos outros. Uma cultura torna-se moribunda quando deixa de ter veículo de comunicação. E não há língua que se mantenha viva sem uma cultura que a suporte.
Por isso, se emocionalmente me custa olhar para o novo acordo ortográfico com bons olhos ou para a introdução de termos como "bué" no dicionário, racionalmente acho que o acordo ortográfico é apenas o reflexo desta evolução cultural e o resultado natural de uma miscigenação por nós iniciada há muitos séculos atrás e que agora nos ultrapassou em pujança e em dimensão. Quem nos manda a nós, anões, parir gigantes?
Resta-nos aproveitar esta onda e procurar fazer dela algo que perpetue a nossa língua e a nossa cultura.
Ainda assim continuarei a escrever português arcaico - sempre me dá um ar mais intelectual :).








