sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
As eleições BPN
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Turquia amordaçada
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Bom Natal a todos
Filosofia e o autómato bissubstancialista de Descartes
domingo, 19 de dezembro de 2010
A crise
Contem as últimas areias da ampulheta e os últimos grãos de açúcar!
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Estar não é existir
Elegia aos Líderes de Portugal ou Carta de Desamor àquilo em que nos tornámos

Nascemos no cimo do monte e descemos aos trambolhões, empurrando o fundo do quadrado com o nosso peso, esmagando muçulmanos e castelhanos com as nossas barrigas rotundas. Chegados ao mar inventámos um rectângulo só para nós, mas não era suficiente, precisávamos de formas mais modernas, mais abstractas. Acabámos por desenhar o mundo juntando continentes num abraço circular de circumnavegação, apenas para desbaratar tudo e regressar em debandada à origem e se não voltámos ao quadrado foi mera coincidência, que quadrados nos mantemos ainda hoje, a viver dentro do rectângulo a que resolvemos chamar Portugal.
Por existirmos e por sermos quem somos, quero agradecer às grandes figuras da nossa nação que continuaram a cultivar a portugalidade!
Obrigado D. Sebastião por teres desaparecido sem apelo nem agravo, dando início à orfandade de que ainda hoje padecemos. Denotaste visão, daquelas que moldam as grandes nações, ao criar uma escola em que a irresponsabilidade é a maior virtude.
Obrigado Salazar, por nos mostrares as virtudes da liberdade. Não há como ficarmos sem algo para lhe sentirmos a falta e tu educaste-nos pela via do exemplo, iluminando os nossos espíritos pela dor e pelo medo.
Obrigado Cavaco, o rei do alcatrão. Nunca tanto dinheiro de outros foi por nós derretido em alcatrão e em formação. O país ficou mais perto mas nem por isso mais esperto. Pelo menos o bolo-rei do teu reinado foi vintage.
Obrigado Guterres por teres chamado os boys pelos nomes... (todos sabemos porque não os chamaste pelos números) ainda que tenha sido quando os nomeaste para o teu desgovernado governo. O teu legado evidenciou a indecisão à portuguesa, que nos consome a todos. No teu caso estender-se-ia, seguramente, até à escolha entre rezar um pai-nosso ou uma avé-maria.
Obrigado Santana e Durão, por personificarem a política de terra-queimada onde a fuga é uma estratégia legítima, seja fuga em frente, para os lados, para dentro ou para fora, mas sempre sem olhar para trás. Como há que olhar sempre em frente e, é sabido, todos temos a memória curta, a incompetência e a imbecilidade vão-se perpetuando ciclicamente – afinal somos todos iguais, se bem que uns mais inimputáveis que outros!
Obrigado Sócrates, ó nosso rei Leónidas, por apregoares a estabilidade e a confiança no futuro enquanto nos despenhamos no precipício financeiro, como as manadas de outrora, acossadas e encurraladas pelos caçadores, se suicidavam cegamente. A palavra cicuta diz-te alguma coisa?
Obrigado Zé, meu bom e dócil Povinho português por parires e tolerares os teus abortos genéticos. Talvez seja a altura, porém, de baixares essa mãozinha e bateres antes uma punheta.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Piada comercial
- um budgetesão!
nota: budget = orçamento disponível para investir em qualquer coisa
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
FEITIÇO
sábado, 20 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Amarás como Ícaro?
Tens no gesto a candura
Das arestas de uma esfera.
E no movimento a frescura
De pétalas viçosas, de Primavera.
A inocência da tua expressão
Qual manhã ensolarada
Embala-me o coração
Em alegria renovada.
O dom da sedução
Embebido em teus poros
Inebria-me a razão
Revela-me novos tesouros.
E a metamorfose que despoletas
Em mim, todos os dias,
Faz renascer as borboletas
Que em meu corpo escondias...
E partem livres e errantes
Sem direcção definida...
Serão cúmplices? Amantes?
Ou tão-somente juventude irreflectida?
Como pairam e esvoaçam!
Ó Icarus, que inveja!
Mas também elas se esgarçam,
Rasgam o pulso que agora lateja.
Cairá o sangue, galopante,
Como tu, Ícaro, sem remissão,
Numa pira chamejante
A pique, directo ao chão.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Ensaio sobre a cegueira – José Saramago
Eu gosto dos livros onde sou eu o condutor e o autor é o co-piloto. Gosto dos livros que me fazem pensar mas não apontam uma solução evidente que se possa comprar no quiosque da esquina – por favor dê-me um maço de cigarros, o correio da manhã e a solução aí à direita, essa que está ao lado das pastilhas de mentol, ai já não tem dessas, então dê-me antes a que está por baixo, até é mais barata, sempre poupo algum dinheiro... Gosto dos livros que não acabam, que não impõem um fim apenas para que possamos ter paz de espírito... afinal a realidade que vivemos não se coaduna com fins urdidos em filigrana resplandecente.
Gosto de chegar cansado ao fim de um livro. Nunca entediado! Apenas cansado porque o livro me agarrou de tal forma que fui forçado a despender toda a minha energia para o afastar e fechar as páginas entre a capa e contra-capa, esmagá-las debaixo de uma pilha de outros livros que ainda hoje se agitam quando chego perto deles, porque a história que contavam não acabou e mais do que ficar eu desassossegado por essa ausência de um ponto final parecem estar eles, os livros, irrequietos, a suplicar-me um fim, que lhes escrevinhe as últimas páginas que costumam ficam desnudadas e, se não chegar o espaço, que lhes use as margens até que a palavra os complete e, completos, possam finalmente repousar em paz, enfileirados numa prateleira ombro a ombro com irmãos, primos e filhos bastardos.
Ao pedir-me a defesa de um livro que me tenha marcado estão-me a pedir que defenda a marca que esse livro me deixou e o Ensaio sobre a Cegueira foi um ferro em brasa que me cegou e que me obrigou a tactear as emoções página a página, capítulo a capítulo, até à palavra derradeira, até ao último sobressalto.
sábado, 6 de novembro de 2010
Ficar
e a noite partiu e chegou.
Ficou o cheiro a terra
Ficou na terra o cheiro
de quem chega e parte,
de quem parte e chega,
e de quem partido fica
ao ver o mundo partir
e o sorriso que o aquece
arrefece-o a seguir,
numa constrição gelada
que aguarda nova chegada,
que na morte, o florir
é beleza que desabrocha
e a centelha de hoje
amanhã será tocha
novamente, até se extinguir.
Ficou o cheiro a terra
Ficou na terra o cheiro
de quem partiu e chorou
de quem voltou e sorriu
os passos de quem passou
a saudade de quem viu.
Todos partem.
Todos chegam.
Fica a terra.
Fica o cheiro.
Ficam sós.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
locus
domingo, 24 de outubro de 2010
Criatividade
Gosto de pensar nela como a actividade de criar, mas não me fico por aqui. Dito assim, a criatividade parece algo maquinal, visceralmente ligado à execução quando, na realidade, não é nada disso. A criatividade surge da necessidade e do prazer da descoberta, característica que retemos da nossa infância, onde tudo era novo. A criatividade nasce da paixão que aplicamos na junção de elementos, nasce do amor com que cozinhamos e transformamos esses elementos para criar algo que seja único, na medida em que está imbuído de sentimentos nossos, de contextos próprios, específicos, dificilmente replicáveis.
É por isso que uma pintura de Picasso é uma obra de arte especial e valiosa e uma cópia exacta da mesma obra não passa disso mesmo - de uma cópia, coxa de contexto, despida de sentimentos, caricatura das emoções que lhe deram luz. E se imitar pode ser uma arte por direito próprio, nunca será mais que uma amostra da verdadeira fragrância que emana de um original.
Neste contexto, criar não é apenas o acto de construir algo mas sim o de construir algo de novo, algo de diferente. É também um acto de amor, na medida em que criar implica amar e construir pode ser apenas um movimento mecânico. Pode construir-se algo e repetir essa criação as vezes que forem necessárias, mas a criatividade inerente a essa obra esgotou-se no momento em que foi originada. O depois resume-se à partilha, à divulgação à democratização e exploração dessa ideia ou obra primordial.
É por essa razão que um quadro branco com uns rabiscos (lembrei-me do Miró, vá lá saber-se porquê...) pode ser algo criativo. Não apenas porque é novo e diferente, mas porque tem um contexto que tem relevância para o autor e para os "consumidores" de arte. Eles reconhecem-lhe a individualidade e descobrem ou partilham as emoções. Da mesma forma uma ave de plasticina, meio deformadita e com o bico desproporcional, manufacturada pelos dedos pequeninos de uma criança, representa a aplicação da sua criatividade - é a expressão dessa criança do seu conceito de ave, de acordo com a sua capacidade, a sua percepção e a habilidade com a plasticina. Tu poderias fazer melhor? Seguramente que sim se, para ti, melhor for uma ave mais próxima do ser vivo real, ou algo diferente mais próximo do teu conceito de ave.
Ainda não há muito tempo participei num workshop de desenho e nesse workshop o formador dizia que desenhar não é necessariamente copiar com exactidão. A sua opinião era distinta - desenhar é interpretar a realidade de acordo com a nossa perspectiva. E estou a falar de desenho à vista!
A análise da criatividade tem um paralelo na forma como se analisa uma obra de arte, talvez porque as obras de arte não sejam mais do que expressões de criatividade, um mero subconjunto que só é relevante porque a arte é relevante para nós, humanos, mais do que outros formas de expressão criativa. Mas, dizia eu, existe um paralelo e esse paralelo traça-se no plano da emoção que determinada obra gera ou não a alguém. Nem sequer tem que ser a mesma emoção que levou à sua criação, mas uma emoção é uma emoção e é gerada por cada ser humano de forma diferente e também por isso, o mesmo estímulo pode produzir resultados diferentes em diferentes pessoas.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
A tangibilidade das palavras
A palavra cresce quando dita em voz alta, compromete quando escrita, agiganta-se quando cantada, é incomensurável quando chorada.
Libertamos e agarramos palavras e elas agarram-nos a nós, como açúcar e suor, como pólos magnéticos que se atraem irreversivelmente... e peça a peça vão completando a nossa roupagem, a camada exterior que nos apresenta ao mundo.
Por isso sabemos que as palavras despertam e deleitam.
Assim as sentimos.
